quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Planície

Cheguei pela tarde. Escoltada por um céu túrgido, dramático e possessivo, dispersando apenas umas gotas orfãs. Apetece-me pôr a cabeça de fora da janela, provar a chuva com a língua esticada fora dos lábios, como tantas vezes já provou as lágrimas que baptizam o meu rosto em sucessivas cerimónias. Choro como se choram todas as perdas pois assim se cicatrizam as feridas e se selam as estórias. Serpenteio entre as curvas da planície, na mansidão áspera da terra. Ausente, absorta, sou conduzida com palavras engasgadas que regurgito só para mim. Sou guiada pelo faro da terra molhada. Ao longe o casario branco despertando suave. O lusco-fusco acolhedor. Esquecer o resto.

0 comments: