quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mais um na multidão

Há quem diga que escrever num blog é sinal de narcisismo ou falta de competência social ou insegurança ou... sempre existirão velhos do restelo.

Eu não sei o que me leva a partilhar no universo da blogosfera algumas coisas, por vezes íntimas outras tantas insignificantes e fúteis. Escreve-se com a sensação de anonimato pelo facto de ser uma entre milhares, a face incógnita na multidão. Com uma certa impunidade por trás da máscara binária... Não é o mesmo o diário da adolescência fechado a cadeado que o irmão mais novo conseguia arrombar e os nossos segredos eram apossados por alguém em concreto. Aqui ignora-se esse medo pueril, o embaraço de vermos exposta a nossa intimidade. Revelamos o que queremos para o Ninguém que representa a universalidade do todo.

Aqui e ali, uma ou outra das inumeráveis entidades ignotas que navegam este colossal oceano de informação supérflua, materializa-se fugazmente em Alguém que nos responde. É raro. A maior parte das vezes projectamos a face num espelho que nos devolve a ausência. Ser para si mesmo é ser aglutinado pelo Ninguém.

domingo, 28 de dezembro de 2008

brumas do futuro

diz-se
fala-se
comenta-se
menciona-se
sussurra-se
balbucia-se
segreda-se
murmura-se

sobre um regresso ainda guardado no segredo dos deuses

porque vale sempre a pena quando a alma não é pequena, já dizia o mestre

sábado, 1 de setembro de 2007

ATÉ JÁ

Caros amigos, tenho de render-me às evidências: escrever em dois blogues é megalómano, mesmo com fraca assiduidade. Assim sendo, vou continuar a divagar no bocadosdenoz.blogspot.com, já que foi o primogénito. É partilhado com uma grande amiga e uma grande alma. Um upgrade para os fiéis visitantes deste cantinho: duas em um.
Isto não é um adeus... é só um até logo.

domingo, 26 de agosto de 2007

Epitáfio

Se eu morresse hoje, agora, nem um segundo mais soprado em esforço,subitamente extinta no mundo que me acolhe...

Faz amanhã 30 anos. Entra na terceira década de vida expectante... Tudo lhe tem chegado tarde, esperando então que esta etapa se mostre mais generosa e lhe conceda algo... "I still haven't found what I'm looking for".

Entra um pouco desfalacada. Há cheiro de angústia e de revolta abafada nas palavras que se desprendem. Pudesse a Vida ser uma entidade concreta e exigir-lhe-ia que prestasse contas. Há um sentimento inquívoco de injustiça, um descontentamento surdo pela trama que as Parcas tecem, cínicas e indiferentes.

Teve uma infância razoável, não guarda memórias tristes. Uma infância morna a que se seguiu uma adolescência fria, despida e cobarde. Nunca arriscou um não e talvez por isso não viveu os sins que calafetam o saco roto do coração. Apaixonou-se pela primeira vez já tarde e acabou cedo. Só resta um nome e um rosto embaciado.

Falamos de uma pessoa culta, razoavelmente inteligente, com sentido de humor, embora sarcástico. Já foi mais feia, bastante mais gorda. Já foi mais impaciente, mais irascível. E quando os seus instintos parecem roçar esse passado, o super-ego dispara.

Tem amigos verdadeiros, aqueles a quem não se escondem as coisas, nem as nódoas negras e contam-se algumas...

Dedicada à família, embora às vezes mais em intenção que em actos.

Eis um ser humano não brilhante mas nem por isso detestável. Sempre dado à melancolia...

Profissionalmente não é má mas não sem a vocação suficiente para ser excelente. Multiplica-se por vários hobbies e interesses. O que ganha, gasta mas não tem luxos ou excentricidades.

Se tivessemos que a caracterizar hoje, muito brevemente que diriamos?

Tanto de valente como de insegura, de capaz como de insuficiente. Eis Vanda, aquela que tatuou perfeição no corpo... o que por si só denuncia o seu carácter irónico. No seu epitáfio deverá constar:
"VJ, viveu a vida q.b.
Para não enjoar!"

PS: E que seja ouvido Jeff Buckley a cantar Hallelujah

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Jeff Buckley- Hallelujah

Há pessoas extemporâneas. Chegam na altura errada. Visitas que batem à nossa porta quando a casa está toda desarrumada e que temos de cingir a uma só divisão, geralmente a mais limpa, logo a mais desabitada.
Pessoas que desejávamos dizer sim mas que irremediavelmente sentimos não.
Dói fechar a porta a alguém... quase tanto como levar com ela no nosso nariz!

Dave Matthews + Tim Reynolds - #41

Há pessoas equívoco. Pessoas que se atravessam à nossa frente e de quem nos podíamos ter desviado. Mas não o fizémos.
Como aquela peça de roupa que ficou prostrada no armário intocada, comprada num impulso e que à luz da razão percebemos ser da cor errada.

Jimi Hendrix All Along The Watchtower

Há pessoas necessárias, úteis. Pessoas que são um produto de luxo. Satisfazem com distinção mas perdem o brilho se votadas à trivialidade.
Há pessoas de quem usufruimos poucas vezes. Para não enjoar...
Todos nos usamos uns aos outros. Damos mas esperamos receber em troca. Até o altruísta, burlão moral, almeja secretamente o reconhecimento, quanto mais não seja de si para si.

Metallica - Fade to Black

Há pessoas perdidas. Pessoas que não se encontram a si mesmas. Pessoas que falham porque é mais seguro falhar, porque o fizeram antes e escolhem a coerência errada.
Há pessoas que apetece esbofetear. Ombros flácidos, mãos indiferentes que colhem os frutos já caídos no chão.
A sua angústia é contagiosa.
Pessoas que queremos salvar, heroica e narcisicamente.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

U2 - With Or Without You

Há pessoas que não se esquecem, mesmo quando já não nos lembramos delas. Pessoas reduzidas a um nome e breves imagens gagas.
Será a dor tão áspera que a mente escolhe encerrá-las na gaveta mais escusa? Para que se percam misturadas com o pó dos anos...
Dizem que o primeiro golpe é o mais profundo. Mas que coração estéril é aquele que não tem cicatrizes a adorná-lo.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Small Talk

O que são as palavras?
Tatuagens mutilando a pele
Palavras que se esgrimem
Palavras que se exibem com vaidade
Seguras da sua necessidade
Adorno fútil
Quando nada mais há que palavras
No need for small talk
Poupemos os discursos coloquiais
A delicadeza artificial
A banalidade da diplomacia
Palavras vivas
São palavras gritadas
Ou jogadas por trás
Roçando o pescoço de quem se ama

Toca o telefone... bla, bla, bla...
Palavras cadáveres
Espectros que assombram o silêncio
A paz envenenada do silêncio
O silêncio fértil de letras que não chegaram a parir palavras

quarta-feira, 4 de julho de 2007

casa vazia

volto a casa sem te trazer pelo braço
despida
manca
supérflua
entro em casa quatro paredes portas fechadas janelas estanques
móveis tisnados de lembranças petrificadas
não me desvio tropeço
tudo desfocado
grotesco
subitamente desnecessário
deito-me na cama dormem fantasmas
viro-me para o outro lado longe da memória

longe da alma

domingo, 1 de julho de 2007

Urgência

é já tarde
muito mais tarde do que julgáramos
entediados nesta dança esquelética
arrítmica
marionetas sem face
que nunca se tocam
provocam-se
e esquivam-se
em elaboradas estratégias de evasão

nunca se tem tempo
quando há tempo a mais
mas nunca é demais
o tempo que nos resta

cada golfada de ar um tesouro escondido
cada anoitecer a hipótese de um sonho novo
cada olhar a possibilidade de um beijo

é tarde
nunca foi cedo para viver

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Planície

Cheguei pela tarde. Escoltada por um céu túrgido, dramático e possessivo, dispersando apenas umas gotas orfãs. Apetece-me pôr a cabeça de fora da janela, provar a chuva com a língua esticada fora dos lábios, como tantas vezes já provou as lágrimas que baptizam o meu rosto em sucessivas cerimónias. Choro como se choram todas as perdas pois assim se cicatrizam as feridas e se selam as estórias. Serpenteio entre as curvas da planície, na mansidão áspera da terra. Ausente, absorta, sou conduzida com palavras engasgadas que regurgito só para mim. Sou guiada pelo faro da terra molhada. Ao longe o casario branco despertando suave. O lusco-fusco acolhedor. Esquecer o resto.